Miguel Araújo

5 Músicas
  • Finalista 2023, 3º Posto Portugal

    Pousou a chave na salva de prata
    Na mesa da sala, o saco das compras
    a carteira na cadeira da entrada
    E a carta do banco no monte das contas

    Eu tirei à pressa os pés do sofá
    E uns restos de repa da testa com a mão
    Aqueci a água do chá
    E ela fez uma festa na testa do cão

    E eu saltitando como um Fred astaire
    Disse “queres que trate dos banhos
    Ou mande este aqui fazer os deveres
    Enquanto que o outro acaba o desenho”

    E ela
    Ali como se nada fosse
    Como se nem fosse milagre
    Um dia normal
    E eu

    Quieto para não dar bandeira
    Alinho nessa corriqueira
    Dança de um dia normal
    Como se não fosse nada de mais

    Que ao fim destes anos
    Já sem estar nos meus planos
    Ela voltasse sempre para mim
    Eu faço tal e qual
    A dança de um dia normal

    Enquanto que a água da massa escorria
    Ela pergunta, num tom casual
    Então que tal correu o teu dia
    Eu disse foi um dia normal

    Não sei se foi a saudade que a trouxe
    Ou se houve algum santo a atender minhas preces
    Mas fiz como ela, como se nada fosse
    Não fosse ela às vezes pensar duas vezes

  • Finalista 2022, 2º Posto Portugal

    Tenho um periquito dentro da gaiola
    Que canta sempre que lhe dou uma Coca-Cola
    Assobia os êxitos da rádio
    Em dias de chuva canta um fado

    Leio uma revista na diagonal
    E consigo ver pra lá do meu quintal
    Tenho um visão grande-angular
    Que abarca tudo quanto cabe no olhar

    Quando eu morrer talvez me esfume
    Em vapor de céu azul
    Talvez me purifiquem nalgum lume
    Ou numa túnica de tule
    Mas por enquanto eu nem me tenho dado assim mal
    pela Europa do sul

    Viva o fado, viva o fado
    Viva a vizinha do lado
    Viva o fandango, viva o fandango
    Viva o vira, vira o frango
    Viva o entrudo, viva o entrudo
    O gigantone e o cabeçudo
    que eu estou por tudo

    Tenho uma amiga que se derrete
    Sempre que me encontra na internet
    Acho que me saiu a taluda
    Às custas de um poema de neruda

    Cedo fui sugado pelo vortex
    Das normas de algum algoritmo simplex
    Embati de frente na tragédia
    De ser meio classe média-média

  • Finalista 2021, 3º posto Portugal

    pobre menina, tão acidentada sina
    encontrada numa esquina, numa cestinha de palha
    em lourizela, nas traseiras da capela
    como cria de cadela sem santinho que lhe valha

    o padre alfredo velho, cobarde e azedo
    não é tarde nem é cedo despachou a desditosa
    “por este meio” foi na volta do correio
    numa mula sem arreio enviada pra murtosa

    a dona otília que ninguém nem dada queria
    viu na curiosa cria cura para a solidão
    deu-lhe uma sopa e de alguns restos de estopa
    fez-lhe carapins e roupa e uma cama sem colchão

    ao ver aquela tez de cravo e de canela
    deu-lhe o nome gabriela (dava a cara com a careta)
    mas sua beleza em brasa, em chama acesa
    pegou fogo à redondeza como o bafo do capeta

    e a inocente um pobre meio rei de gente
    muito recatadamente espairecia a sua mágoa
    com um rádio velho boca de batom vermelho
    a cantar em frente ao espelho as canções da lena d’água

    lobos malvados, velhos loucos reformados,
    mexericos , maus olhados das beatas da igreja
    mal via a hora de arrancar dali pra fora
    sem deixar rasto, ir embora ver o mundo, ver estarreja

    sem pé de meia teve uma brilhante ideia
    decidiu pedir boleia e só parar em paris
    sem carteira lá foi sem eira nem beira
    e nem sequer viu a fronteira não chegou nem a sanfins

    e em valpaços com alma em mil pedaços
    entreteve-se nos braços de um magala de alcafache
    pediu boleia a um pelintra de gouveia
    que a mandou sair em seia e nunca mais olhou para trás

    sem armar giga cantou-lhe uma cantiga
    deixou-a de barriga e arrancou sem dar sinal
    sem dois tostões deu por ela aos trambolhões
    junto ao porto de leixões com uma filha e um ucal

    sacou dinheiro a um velho engenheiro
    e escondeu-se num cargueiro que rumava à capital
    chegou-se à proa e quase achou que a vida é boa
    ao ver as luzes de lisboa lindas como num postal

    entre destratos, desaforos, desacatos
    varreu escadas, lavou pratos numa tasca do cacém
    entregou-se a um tratante de pedrouços
    saído dos calabouços que a deixou sem um vintém

    no intendente tropeçou numa vidente
    que jurou que mais à frente a sorte havia de sorrir
    a cartomante uma velha de turbante
    intuiu pelo semblante um futuro a reluzir

    na luz da vela viu a luz de gabriela
    com direito até a estrela no passeio de hollywood
    em poucos dias por misteriosas vias
    cumpriam-se as profecias mais certeiras que o talmude

    nessa semana foi pra america, fez fama
    privou com a primeira dama levou a filha ao hawai
    e em gouveia passa um louco, volta e meia
    que blasfema e cambaleia e garante que é o pai

    e na murtosa o padre faz menção honrosa
    festa, missa, pompa e prosa que hoje é feriado local
    em lourizela há uma estátua em honra dela
    “aqui nasceu gabriela o grande orgulho nacional”

    em lourizela,bem de frente pra capela
    para sempre gabriela como quem diz ah pois é
    (e o engenheiro confere o bolso traseiro
    vê que lhe falta dinheiro e volta para leça a pé)

  • Finalista 2020, 2º posto Portugal

    Eu tenho uma noção de mim
    Perfeita noção de mim
    Tenho-me sempre à espreita
    Sob escuta atenta
    É uma luta, eu sei
    Tenho bem noção de mim

    Tenho essa noção de mim
    Estreita noção de mim
    Debaixo de olho
    Alerta, atento
    Bem ciente do espelho, eu sei
    Tenho essa noção de mim

    Talvez se alguém me jurasse
    Que talvez ninguém soubesse
    Talvez até te convencesse

    Talvez se eu dançasse
    Como se ninguém me visse
    Como se ninguém medisse os meus passos

    Talvez se eu cantasse
    Como se ninguém me ouvisse
    Como se ninguém contasse os compassos

    Eu tenho uma visão de mim
    Sempre em supervisão de mim
    Autoconsciência armou o alarme
    E dar-me, eu já nem sei
    Eu tenho essa visão de mim

    Eu tenho uma visão de mim
    Uma mais alta versão de mim
    Em que eu sou leve
    E o que me leva é a vida inteira
    Inteiro até
    Uma mais alta versão de mim

  • Finalista 2018, Portugal

    87
    Dentes de leite
    E uma chiclete
    Dentro dum sorvete
    Doce deleite, doce deleite sob o sol
    87, o troco vai em chiclas de mentol

    A volta ao mundo
    De biciclete
    E uma cassete
    Que se repete
    48k, k7, panike e um sumol
    Depois das sete, depois das sete
    Vê-se o futebol

    E o chicote na porta da dispensa, Sangemil?
    Na vassoura a trote
    Como o bud spencer e o terence hill

    Brasília, Bazar paris
    Parque itália, salão londres
    E dallas logo ali

    O mundo é por aqui, eu vi
    É passe do Juary
    Quase que podia jurar
    Que foi golo de calcanhar
    O mundo é por aqui

    Com o sol a pique,
    O sorvete derrete,
    Bem como o pico do Evereste
    Diz o Antímio que é típico do tempo que mudou

    Será da Coca-Cola?
    Sai da carapaça, caracol

    E o chicote na porta da dispensa, Sangemil?
    A lei do mais forte
    Como o bud spencer e o terence hill

    Brasília, Bazar paris
    Parque itália, salão londres
    E dallas logo ali

    O mundo é por aqui, eu vi
    É passe do Juary
    Quase que podia jurar
    Que foi golo de calcanhar
    e o mundo é por aqui